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Indiferença também mata. Precisamos falar sobre o suicídio.

Suicídio

Setembro é o mês de prevenção ao suicídio. O tema é polêmico e por isso nem sempre é abordado, porém, acredito que precisamos falar sobre isso. Quer saber mais? Confira o artigo.

     Só quem sofre com os fantasmas criados por si mesmo sabe o tormento e a luta diária pela sanidade. A calmaria durante a tempestade, o silêncio dentro do furação, o sorriso disfarçado, a cicatriz escondida, a mentira que sufoca, a mente que violenta e molesta. A depressão nem sempre é fácil de ser percebida. As pessoas procuram assumir outra identidade a fim de ocultar o que sentem de fato, por medo, vergonha. Numa sociedade tão intolerante como a nossa, depressão é sinal de fraqueza, é desculpa esfarrapada, e isso faz com que o depressivo sinta-se culpado e impotente, incapaz de buscar ajuda para não ser julgado.

     O suicida não é burro, não é uma pessoa inconsequente e irresponsável, uma pessoa fraca ou um desequilibrado. Ele apenas está preso em um mundo onde não consegue mais enxergar nada de bom. Sua mente sofreu um bloqueio em que tudo que lhe resta é tristeza, ódio e sofrimento. O suicida muitas vezes se sente culpado, culpado por ter todos esses sentimentos. Essa culpa aumenta mais ainda ao ouvir de algum amigo ou familiar coisas como: “você está exagerando” ou “não faça drama” ou então “isso acontece com todo mundo, e todos superam”. As pessoas com depressão não podem ser vistas no senso comum, sob a ótica da maioria das pessoas, o diferencial é o “como”, como essas pessoas reagem aos problemas ao seu redor, como elas se sentem e como extravasam esses sentimentos. As pessoas são diferentes, mas em um mundo hipócrita prega-se que todos tenham o mesmo comportamento.

     Comportamentos como se cortar, se bater, se morder, enfim, descontar de alguma maneira a raiva e a tristeza em si mesmo, muitas vezes são vistos como “frescura” por pais e adultos no geral. Tudo é superficial, é “uma fase”, ou então, “meu filho nunca faria isso, são as más companhias”. Não se trata da educação recebida em casa, cada pessoa tem seus monstros a enfrentar, e às vezes dentro da mesma família, filhos podem ter comportamentos bem diferentes e não reagirem da mesma forma quando expostos a situações idênticas. Esses comportamentos são modos de aliviar a dor. Certamente é preciso direcionar esses comportamentos para outras ações. Todos nós temos motivos que nos deixam estressados, todos nós temos dias ruins, porém, existem atividades saudáveis para extravasar nosso estresse.

     O problema é que a pessoa mergulhada na depressão não consegue sozinha se propor a mudanças. Ela precisa de ajuda. Tudo, tudo nessa vida é mais fácil se tivermos ajuda, se tivermos alguém que se importe conosco e tente nos entender. Não precisamos de julgadores, acreditem, já fazemos isso sozinhos, somos auto julgados o tempo todo, e o veredito é sempre o pior possível, nos julgamos e nos condenamos culpados. Portanto, dispensamos mais julgamentos ruins.

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     A verdade é que não há como saber o que está realmente se passando na cabeça de uma pessoa, às vezes não há como saber que a mesma está com problemas. Algumas pessoas são tão fechadas que não comentam nada com ninguém, e ainda aparentam levar uma vida normal. Mas quando somos muito próximos de alguém, pequenas mudanças no comportamento da pessoa podem ajudar a identificar o início de um quadro depressivo. O isolamento, por exemplo, é facilmente identificável.

     É normal querermos ficar sozinhos de vez em quando, mas quando isso se torna rotina, quando abandonamos totalmente o convívio social é porque há algo errado. Nesse caso, ao invés de “desistir” de chamar aquele seu amigo pra sair, porque afinal ele nunca quer ir, ofereça-se para ir até a casa dele, assistir um filme, fazer um jantar, às vezes é preciso se impor, amigos também são pra isso.

Se você percebe que há algo diferente e não faz nada, está sendo negligente. Indiferença também mata aos poucos.

     As pessoas tem que aprender que estão aqui para cuidar umas das outras. O problema é que a maioria dos amigos não é amigo. O povo confunde a palavra amigo com a palavra interesse. Amizade por interesse não é amizade. Se você se acha amigo só na hora da balada e do bem bom, você não é amigo. Amigo de verdade fica junto, cuida, vai na farmácia, faz canja quando tá gripado. São poucos amigos verdadeiros que existem.

     O que eu gostaria em um mundo ideal, era que as pessoas se preocupassem mais umas com as outras, que deixasse de existir a segregação, a exclusão do “nerd”, da “estranha”, o bulling, os falsos amigos, os “amigos de balada e só”.

     A adolescência é um período extremamente difícil, mas a vida adulta não fica atrás. E o melhor remédio para atravessar todas essas fases é o apoio, é o ombro amigo, é um amigo. O segredo para acabar com a dor desse mundo é o amor, o apoio, os laços de ternura formados pelas pessoas.

     Menos negligência a essas questões, não podemos esconder os dados como se não existissem, como se não houvesse um grande problema a ser tratado.

Precisamos falar sobre o suicídio.

Não podemos deixar que mais vidas sejam perdidas caindo no abismo de suas próprias mentes, sendo dominadas por seus próprios medos, sentindo-se tão sozinhas e abandonadas no mundo a ponto de achar que essa atitude é a única solução.

     E que sejamos capazes de enxergar sempre algo de bom na vida, independente de quaisquer circunstâncias em que nos encontremos que possamos acreditar que tudo há de melhorar, e que apesar de tudo a gente consiga segurar a mão daquele que nos oferece ajuda, que nos deixemos ser ajudados.

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7 comentários

  1. Jeane Santos diz

    Que reflexão maravilhosa, devemos sempre ajudar as pessoas e falar sobre isso sempre será a solução além das nossas atividades corretas. Precisamos abrir os olhos e observar sinais que mostrem que alguém ao seu lado está sofrendo. Parabéns pela reflexão!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Karine Leite… Muito obrigado!

    O seu texto é uma síntese, é consolo para os que precisam de ajuda e um choque de realidade para aqueles que precisam ajudar.

    Esse texto não pode ficar perdido, ele deve ser encontrado por mais pessoas, saiba que o promoverei muitas vezes, seja no Twitter, no Facebook e no blog que criei para falar sobre este assunto. Você conseguiu colocar em palavras aquilo que fica preso na cabeça de muitos, obrigado mais uma vez!

    O mundo precisa urgentemente de mais Karines!

    Um abraço,
    José Neto

    Curtido por 1 pessoa

    • José Neto eu que agradeço tua visita e teu comentário. É muito gratificante sentir que com um pouquinho podemos ajudar. Minha intenção ao escrever esse texto era justamente incentivar que se fale mais a respeito do tema no intuito de conscientizar e também prevenir.
      Muito obrigada! =)

      Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: Indiferença também mata. Precisamos falar sobre o suicídio. – Blog Depressão Jovem

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